O que aprendi com Borges e a vida não é para os fracos

O que aprendi com Jorge Luis Borges

Quando Borges ficou Cego aos 55 anos – sim, Jorge Luís Borges, o escritor argentino, não Borges, o gato mais famosos do Brasil – ele confessou que, caso tivesse a oportunidade de enxergar novamente, desejaria ficar eternamente em sua biblioteca; que sentia tão perto e tão longe de si.

Veja bem, o ser humano poderia escolher qualquer coisa: se maravilhar com o jardim de templos de Began, no Myanmar; apreciar as esculturas do artista nova iorquino mais badalado do momento; ou ainda conferir se as luzes de Tokyo traduzem tudo aquilo o que vemos na TV. Mas Borges não.

Leu pouquíssimos livros e ao ser confrontado com o título de maior escritor de todos os tempos, modestamente o recusou e demonstrou profunda pena da humanidade. Pois caso vivesse no século XIX certamente passaria despercebido. Acredite, sua revelação estava imbuída de genuína humildade – ou talvez verdadeira ingenuidade a respeito de quem foi.

É tão comum encontrar pessoas modestas sobre a própria existência, mas o assustador – e infinitamente comum – é se deparar com aqueles que anulam a própria capacidade de criação e inventividade.

Indivíduos que passam pela vida de forma tão mecânica que, eu suspeito intimamente, sequer tiveram contato com seu lado mais humano; que surge do questionamento, da imaginação, do poder de criar e fazer nascer do mais absoluto corriqueiro o extraordinário.

Jorge Luís Borges com certeza não foi levado pela vida, ele a conduziu nos dentes e, assim, viveu plenamente sua humanidade. Talvez, pela certeza da cegueira iminente – herança maldita que, com ele, atingia a 5ª geração – Borges pôs-se em estado de subordinação diante da sua humanidade plena.

E por isso escreveu com afinco, desenhou narrativas que nasceram para a eternidade e, mesmo quando pessimista, manifestou sua admiração pelos aspectos que nos tornam intrinsecamente humanos.

Não sabemos quando vamos morrer, aonde vamos morrer ou as circunstâncias do nosso perecimento. Sabemos apenas que o fim é inevitável, que a existência é curta e que permanecer atrofiados diante da nossa capacidade de criação é o mais comum dos acontecimentos. É triste, mas é verdade. E a consequência é a implacável perda de tempo e a sensação de que pouco estamos fazendo disso que chamamos vida.

Tão comum perder tempo realizando os sonhos que não são nossos, que de tão incompatíveis já nos prostramos resignados. Perdemos tempo deixando o que importa para um amanhã que nunca vem e perdemos tempos correspondendo a uma expectativa que não nos revela nada, que não revela nada de nós.

Borges nos deixou fisicamente aos 86 anos, mas se tornou imortal ainda menino, no momento em que começou a perder a capacidade de enxergar. Porque ele sabia sobre si e porque tinha consciência a respeito do seu limitado tempo de criação. Borges me ensinou a não confiar no tempo, a não admitir o depois, uma vez que o depois talvez seja tarde demais.

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