O poder (destruidor) da exclamação!

Há pessoas que escrevem com sotaque e outras que não conseguem entender, há quem se irrite com quem manda mensagem em caixa alta e há seres humanos que se abalam com uma exclamação mal posicionada. Eu, por um acaso, faço parte desse grupo.

Aposto que você está pensando agora mesmo que tudo isso não passa de fricote, ou ainda que eu me dedico a patrulhar a gramática alheia.

Não, nada disso. Inclusive peço que não me julgue, caso se depare com um escorregão aqui e ali. Porque o português, meu filho, a norma culta mesmo, sabe? Aquele do gerúndio do telemarketing e da mesóclise do Temer, definitivamente, não é para os fracos.

Mas vamos voltar à exclamação. Posso te garantir que o buraco é mais embaixo. Isso porque esse símbolo, aparentemente inocente, alegre e enfático pode significar a sua ruína!!!! Ok…não vamos exagerar, mas essa nossa língua pátria é foda e até os maiores diletantes concordariam comigo agora.

Veja bem, quando eu conheci esse ícone das interjeições, o muso absoluto da ênfase, o emblema das emoções arrebatadoras, eu tinha não mais que 7 anos. Lembro que a professora nos alertou para ter muito cuidado com a exclamação, porque se mal posicionada, poderia levar a interpretação coléricas.

Interpretações coléricas é algo muito pesado para se dizer a uma criança em sua mais tenra idade. Pois bem, confesso que na época eu não fazia a mínima ideia do significado da palavra colérico, mas pela cara da professora coisa boa não devia ser.

O fato é que eu cresci com isso na cabeça e essa coisa de ter o marte em peixes sempre foi o meu calcanhar de Áquiles. E por muito tempo eu fui mais sensível do que gostaria.

O auge do meu drama exclamatório se deu três semanas atrás. Conversava com uma amiga sobre um roteiro que ela havia me encomendado, mas que, por descuido meu, precisaria adiar a entrega para o dia seguinte. No que ela me respondeu:

Ela (18:45) : Tá bom!

Eu(18:45): (silêncio)

Como assim “tá bom!”? Eu esperava tudo. Que ela me chamasse de irresponsável, que escrevesse um “tesc, tesc” e ao lado adicionasse aquele emoji de desdém ou ainda que rompesse a relação de vez, para sempre, para nunca mais!

Mas então, eis que ela respondeu “tá bom!”. Fiquei algum tempo olhando para aquela frase, que parecia muito despretensiosa, mas no fundo eu sabia, eu tinha certeza de que escondia mais mistérios (e julgamentos) do que supõe a nossa vã filosofia.

Resolvi abstrair. Me voltei para um episódio de uma série qualquer, mas virava e mexia eu olhava, de soslaio, para o celular lembrando da última mensagem.

Depois foi a vez de ler uma revista, pintar as unhas, fuçar o instagram alheio, fazer um escalda-pés e “sem querer”, nesse ínterim, eu abria o whatsapp para constatar que a mensagem continuava lá, me encarando.

Finalmente sucumbi. Me agarrei em um fragmento de coragem, respirei fundo e estufei o peito. Pronta pra briga respondi:

Eu (20:00): Tá bom o que? (acompanhado de um emoji com as sobrancelhas levantadas e os cantinhos da boca inclinados. uma carinha amarela preocupada, totalmente chocada e sem palavras)

Ela (20:07): Typing…

Tudo bem!

Mas será o benedito, pensei…

Eu (20:08): Tá chateada? (carinha amarela tensa com os dentes cerrados)

Ela (20:08): Oxi, claro que não. Pq?

Eu (20:08) : Pq você disse “Tá bom!” (carinha amarela virando os olhos)

Ela (20: 13): Porque está tudo certo!

Amanha você me entrega!

É até melhor, porque hoje nem teria condições de ler mesmo.

Ocupadíssima!

Eu (20:14) : Tá bom! (carinha amarela com uma gota de suor escorrendo da testa, mas com sorriso de alívio)

Ela (20:20): (piscadinha marota na carinha amarela)

Emojis acabam comigo. Emojis me derretem. Todo mundo deveria falar através de emojis. Toda pontuação deveria ser substituída por uma carinha amarela.

Há pessoas que só escrevem com exclamação e outras que não conseguem entender, e por isso se afetam; há aquelas que em tudo colocam um emoji e há seres humanos que reúnem todas essas característica ao mesmo tempo. Eu, por um acaso, sou uma deles.

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