Nada pode ser mais absurdo do que estar em um vagão de trem semideserto, às 22 horas de um sábado frio, na cidade mais populosa da américa latina. O ideal seria desfrutar de um chá de frutas cítricas, sob edredons e meias felpudas; ou encontrar os amigos em alguma fila de boteco — para tomar uma cerveja estupidamente gelada e garantir uma mesa ao lado de fora que, no final das contas, nem serve pra sentar e sim para pendurar as bolsas e casacos.

E é nesse momento, em que me pego refletindo sobre a minha falta de sorte, que sou perturbada por um choro estridente de criança. Em poucos segundos ele se aproxima de mim da mesma forma que um trio elétrico alcança o Morro do Cristo, em Salvador: cada vez mais alto, incessante e barulhento.

O brado retumbante vinha de um menino miudinho de cabelos enrolados, mãos na boca e moletom vermelho de homem-aranha. No seu encalço, uma mulher muito grande, com os cabelos muito despenteados e a expressão muito mal-humorada se arrastava pelo vagão, lhe dando leves empurrões para que a criança continuasse o seu percurso.

O choro, interrompido algumas vezes, recomeçava cada vez mais sonoro e automático. Alguma coisa me dizia que aquela mulher lhe dava discretos beliscões para que o lamento não cessasse. Mas não posso assegurar essa tese, seria leviano da minha parte.

Era como se, de alguma forma, ela quisesse por luz na ribalta da nossa inércia e covardia, diante do teatro de horrores no qual todos nós atuamos. Uma cena que de tão costumeira, se tornou ordinária. De tão repetitiva, já não imaginamos a nossa vida sem ela.

No esforço para deixar de ser invisível, conduzia desajeitadamente o pequeno herói entre meia dúzia de passageiros. Distribuindo papeizinhos gastos e encardidos, com frases datilografadas que revelavam suas dificuldades, sua fome, seu desespero e sua prostração diante da vida.

A criança chorava. A mulher, nada falava. Os passageiros, muito mal os notavam. Permaneciam no manuseio frenético dos seus celulares em um mundo ocluso por fones de ouvido. Os mais distraídos, quando percebiam a aproximação da dupla, rapidamente desviavam o olhar para as luzes dos modernos prédios refletidas na correnteza do rio Pinheiros.

Enquanto minha estação se aproximava, conclui que nada pode ser mais absurdo do que encontrar uma criança vagando em um trem semideserto, às 22 horas de um sábado frio, na cidade mais populosa da américa latina.

Mas assim como os super-heróis andam um bocado démodé, se indignar diante de tal circunstância parece meio old fashioned por aqui. Tremendo de frio, o homem-aranha entrou no vagão seguinte.

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