Em Seattle, defronte a arborizada e melancólica Pioneer Square, duas senhoritas imóveis observam o caminhar dos passantes nesta fria manhã de primavera. Imagino se são amigas, todavia elas não trocam confidências entre si. Apenas mantêm aquele olhar blasé, próprio das mulheres belas e plenamente conhecedoras da sua perfeita simetria.

Do outro lado da rua, ao relento, eu as observo através do vidro manchado pelas gotas de chuva – lembrança da noite anterior – e percebo que elas não me notam. Como também não atinam para qualquer um que pare na calçada para admirar seus ornamentos. Como poderiam? Não passam de manequins da vitrine de um antigo brechó.

O cenário que as envolve remete-me a um restaurante francês dos anos 20. E a recordação me causa saudades daqueles tempos, apesar de nunca tê-los vivido. Na mesa que se entrepõe entre elas repousam suas bolsas fashionistas, seus óculos em formato de coração, um leque bordado e um sobretudo cinza a tiracolo, sempre muito conveniente nos países acima dos trópicos.

As jovens silenciosas – munidas de luvas, meia arrastão, sapato Oxford e casquete sobre os cabelos – prestam, ao seu modo, uma homenagem ao arcaico; ao mesmo tempo em que são protagonistas de uma cena notavelmente exótica, e que de tão pitoresca é fictícia. Mas poderia a ficção ser mais inusitada que a própria vida?

Houve um tempo – muito antes do Jimi Hendrix nascer e do Kurt Cobain morrer em Seattle – em que as ruas da cidade foram tomada por um incêndio devastador e tudo o que era conhecido, até então, passou a não existir mais. A alternativa foi assentar os tijolos em um nível acima do original, que é o que conhecemos hoje, e o ciclo recomeçou a partir da Pioneer Square.

E é nesse momento que fico a imaginar quantas histórias aquelas senhoritas sem alma, e todo o aparato que as recobre, teriam vivido. Quantos acontecimentos naquela praça seus olhos haviam registrado.

Daquele tempo, restaram apenas alguns fragmentos da antiga civilização – e também as galerias subterrâneas que, com um pouco de disposição e 20 dólares, podem ser acessadas pelos curiosos.

Mas e o casquete bordô? Teria ele sido confeccionado por uma modista dos anos 50, passado de avó pra mãe, de mãe pra filha ou fora costurado por uma criança escrava da periferia de Bangladesh.

Sem esquecer a bolsinha. A minúscula bolsa cravejada de pérolas falsas e que agora repousa no colo da jovem loira entediada. Que contingências ela viveu? Em quais lugares foi esquecida? Quantos beijos em bares escuros testemunhou?

Atravessei a calçada e, como muitos, me aproximei das manequins para admirar melhor tamanha explosão de excentricidade e memórias. Emparelhei os meus olhos castanhos ao azul da íris envernizada de uma delas – em uma tola tentativa de levar um pouco de frescor para aquele ser inanimado – e naquele momento, qual foi minha surpresa ao perceber que, despretensiosamente, ela me olhou de volta.

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