Já faz muito tempo, 20 e poucos anos atrás, não sei exatamente, mas lembro que foi na segunda metade dos anos 90.

Desconheço a sua idade e, por isso, talvez 20 anos não represente tanto tempo – se você já viveu mais de 70 anos – mas não me leve a mal, ainda não completei 30 e 20 anos é praticamente dois terços da minha existência.

Mas para os mais novos, para aqueles que nasceram na época em que essa história se passou, talvez seja difícil entender o que foram aqueles últimos anos do século 20.

Para uns, pode não perecer muita coisa, mas para mim, que nasci e cresci na transição daquele tempo, significa tudo. E as coisas que vejo hoje, meu caro, por vezes me embasbacam. Você não está acreditando, né?

Eu nasci em uma época em que o bem mais desejado por uma criança noventista da classe média era um tamagotchi. A coisa que mais nos dava prazer era alimentar esse tamagotchi, e as nossas projeções de futuro mais otimistas era ver o nosso tamagotchi crescer; grande e forte, sem traumas e mortes prematuras. Assim eram os anos 90.

Mas o tamagotchi morria e recomeçar o processo de criar um serumaninho virtual dava tanta preguiça, mas tanta preguiça que a melhor coisa a fazer era deixa ele de lado e interagir com os seres humanos mesmo. Não havia smartphone, não havia MP3 e, na minha vida, não havia crianças. Eu era filha única e passava longos tempos na companhia de adultos.

E foi nesse contexto que as coisas aconteceram. Em uma Semana Santa qualquer do anos 90…

Demorei um tempo para entender essa tal paixão de Cristo. Como todo criança que nasceu em um país católico, já tinha uma leve noção da santidade do nosso senhor Jesus.

Por outro lado fui muito influenciada por novelas e desde sempre me interessei pelos desdobramentos rocambolescos de uma boa trama. Por quem Cristo se apaixonou? Qual pessoa despertou sentimentos no ícone mais importante do mundo ocidental?

A gente estava em um ônibus – minha mãe, eu, um amigo dela do teatro e mais algumas dezenas de pessoas desconhecidas.

A conversa descampou para a encenação da Paixão de Cristo. Estava em silêncio e em silêncio permaneci. Mas ativei minha audição, cerrei os olhinhos e posso apostar que meus lábios se contraíram em um sorriso – aquele que surge quando estamos bem perto de desvendar algo misterioso.

Tudo ia muito bem, porém eu não me preparei para a revelação que sairia dos lábios de minha mãe.

Falta só resolver o problema da crucificação, comentou ela. Mas ele não será amarrado? retorquiu o amigo. A gente ainda não decidiu. Esse momento da morte de cristo é a parte mais difícil da logística.

Como assim? Eu ouvi direito? Cristo morreu? perguntei chorosa.

O ônibus ficou em silêncio. Minha mãe, desconcertada, confirmou:

É..sim…morreu.

Bufei. Eu não podia acreditar! Mas como? Quando ele morreu, onde ele morreu? POR QUE ele morreu?

Lembra dos desconhecidos do ônibus? Pois então, começaram a rir. Rir não, gargalhar! Da minha ignorância e da reação de surpresa daquela jovem mãe.

Como se eu tivesse perguntado algo absurdo. Até parece! Com seis anos a morte pode ser algo bem assustador! Pensando bem, com 36 e 76 também, mas isso é assunto para outra crônica. E a tal da paixão? E a musa inspiradora de Jesus?

Foi então que nesse dia eu descobri duas coisas: a paixão de Cristo pela humanidade e a metáfora. Confesso que fiquei desapontada.

Entendi quando Romeu se sacrificou por Julieta que, percebendo a merda feita, se sacrificou por Romeu. Fez sentido quando eu li algo sobre um contentamento descontente. E, principalmente, quando praguejei contra Luana, minha coleguinha do primário, por ter dançado a quadrilha com Beto, no meu lugar. Isso sim era paixão!

Mas Jesus…pela humanidade? Olhei ao redor. Tem certeza que você fez a coisa certa?

Mais tarde, bem mais tarde, descobri que paixão vem do grego pathos. Que pode significar excesso e patologia. E patologia tem alguma coisa a ver com doença e obsessão. Ai sim, nesse momento tudo fez sentido.

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