Os dedos tamborilam aflitos, a respiração esta levemente alterada, a boca saliva, mas quem resiste aquela casquinha de ferida? Sim, da ferida de um corte, de um arranhão de gato, de uma picadinha de muriçoca.

É inevitável. É mais forte que o nosso autocontrole consegue suportar. É como ver um “oi, sumida” daquela pessoa  e correr para ler. Ou quem sabe uma vontade louca de larapiar o pudim em plena madrugada, após um dia de saladinha e oleaginosas. Como resistir? Impossível, diriam os incrédulos.

E como demora pra cicatriza. Arde quando o banho vem, dói quando há descuido, repuxa se alguém encosta, magoa sem mais nem porquê.

O movimento tátil é sincronizado. Mais gostoso que estourar plástico bolha, reverbera mais que pisar em folhas secas. Começando pelas beiradas, vamos levantando as bordinhas, circundando o espaço, nos apropriando do terreno.

Já era hora de parar, mas.. mas…Como pode ser tão irresistível? E de repente, o que restava da proteção se vai. O cascão se sustenta preso na lateral da ferida, agora completamente exposta. Como a tampa aberta de uma lata de atum, como dedos humanos em uma teia de aranha, basta um leve puxar, uma sacodida de nada, e o elo frouxo se rompe.

Pare por um instante.

Nesse momento você poderia empurrar a casquinha, cobrir a ferida exposta e dispersar sua obsessão. Como se nada tivesse acontecido. Um segredo íntimo. Isso! É isso o que farei, você pensa. Olha para o lado, observa uma trilha de formigas e antes que perceba, seus hábeis dedos puxam com toda a força, o cascão.

Cacete, agora doeu!

Com pena de si mesma você perscruta com cautela. Do rosa pálido, gotinhas vermelhar brotam e se agrupam displicentemente. A ferida está completamente descoberta. As vezes você acredita preservar uma coisinha de nada, o suficiente pra não se sentir tão vulnerável. Mas no fundo você sabe que é tarde demais. Já era, não há mais volta, está feito!

Vai arder no banho, doer com um esbarrão e magoar, sem apelo nem agravo.

Mas se o interesse da ferida é a cicatriz, como certa vez refletiu Lacan, mais cedo ou mais tarde você se dará conta da pele refeita. A cicatriz agora é só mais uma lembrança de guerra; das lutas que você perdeu e, por fim, sucumbiu. Tipo fim de copa sem taça, tipo amor sem volta.

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