Essa crônica não vai abordar as retas e formas de Isay Weinfeld, Márcio Kogan ou Paulo Mendes Rocha. Não. Mas como a APC (Arquitetura Popular Contemporânea) é a responsável pelos maiores índices de constrangimentos domésticos. Explico: Com as proporções cada vez mais diminutas dos apartamentos e as paredes de fina espessura, é preciso certo rebolado para não fazer parte da vida do vizinho.

No meu imóvel de 47 metros quadrados, vista para uma praça sem árvores, sem varanda e pouca luz do sol, já me confrontei com chupões de adolescentes no elevador, gargalhadas além da medida e discussões homéricas entre marido e mulher – além dos gemidos de amor desse mesmo casal.

Há uma vizinha no andar de cima que toca piano. A verdade é que não posso garantir se é homem ou mulher, ou a precisa localização da sua unidade, mas a partir do repertório sempre arrematado com Tico-Tico no Fubá, e pela forma diagonal como o som invade o meu apartamento, entendi que estou diante de uma mulher de meia idade, ornada com um colar de perolas falso e uma rosa que repousa sobre sua orelha direita. Ela é solitária, mas satisfeita com a vida que leva, concluo.

O Hall de cada andar é tão estreito que outro dia, enquanto esperava o elevador, não pude deixar de ouvir uma conversa bastante didática entre um filho e um pai.

O jovem rapaz explicava que o cigarro artesanal encontrado aleatoriamente no bolso da sua calça não passava de tabaco. Mas esse tinha um diferencial, pois possuía propriedades medicinais proveniente da camomila. O pai não engoliu essa lorota, mas a mãe aquiesceu de forma mais condescendente, quase admirada com a evolução da indústria tabagista. Não vi, confesso, mas posso garantir que assim ocorreu.

Como todo ser social – definido pela antropologia como humano – por vezes me preocupo com a imagem que transmito aos meus vizinhos.

Fico assim me perguntando o que eles pensam quando me ponho a acompanhar musicas muito antigas e muito estranhas. Ou ainda em idiomas que nem eu entendo, mas insisto cantarolando, como faria uma criança.

O mais curioso de compartilhar da intimidade alheia é fingir ser completamente estranho nos encontros casuais do hall do prédio. Pois a boa educação recomenda um estado de amnésia súbita sobre os eventos da noite passada.

Sabe aquele silêncio compartilhado por dois vizinhos no elevador? Engana-se você se pensar que é fruto de qualquer constrangimento, não, não. Faz parte apenas das normas de conduta e etiqueta das relações contemporâneas, completamente convergente com a arquitetura que as abriga. Pequena, frágil e dissimulada.

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